Fonte: O Globo

Fraude na esperança de Lumiar
JOÃO PIMENTEL

Há seis anos alugo uma casa em Benfica, próximo a Lumiar, distrito de Nova Friburgo. Tenho muitos amigos entre moradores nativos, sonhadores que ficaram por lá alimentando o sonho paz e amor dos anos 70 e gente como eu que encontrou ali um refúgio perto da natureza e da harmonia. Como cantou Lulu Santos no show que fez na sexta passada na cidade, Lumiar é terra de "gente fina, elegante e sincera". O show abriu um festival que prometia um encontro histórico, já que na segunda, dia 14, haveria um encontro de Milton Nascimento, Beto Guedes, Lô Borges, Toninho Horta e Wagner Tiso. Seria o Clube da Esquina na cidade que Beto Guedes e Ronaldo Bastos transformaram numa bela canção.

E foi esse o ambiente encontrado por inescrupulosos para dar um dos golpes mais covardes que já vi.

Anderson Terra Pomar, Nelson Rodrigues dos Reis Filho e Damião Geremias de Souza, produtores de uma Cartão Postal Editora e Publicidade Ltda. (CNPJ 10912223/0001-89), chegaram em Lumiar há alguns meses e fizeram um show comemorativo dos 35 anos da canção de Beto e Bastos no campo de São Pedro da Serra, localidade vizinha a Lumiar. O show foi um sucesso.

Então, alugaram uma casa na praça de Lumiar e anunciaram um evento para o final de semana passado: o Serra Sons. Arregimentaram produtores locais, botaram pontos de venda no comércio e também em regiões vizinhas como Sana, Macuco, Mury, além de cidades que ficam na outra ponta da estrada Serra-Mar como Rio das Ostras e Búzios. Também iniciaram uma venda maciça na internet, pela Tickets For Fun. A rede estava montada.

Havia promoção para moradores da região e foram vendidos passes válidos para todos os dias. As pousadas da região venderam pacotes para visitantes que vieram de Curitiba, de Goiás, de várias cidades de Minas. Um efetivo da Polícia Militar de Friburgo foi deslocado para reforçar o patrulhamento. E os moradores da cidade se prepararam para receber, da melhor forma possível, os visitantes. Os comerciantes reforçaram, e muito, seus estoques.

No domingo de manhã, quando fui tomar café na padaria de uma amiga, a Janaína, recebi uma notícia
surpreendente: os produtores haviam fugido de madrugada com todo o dinheiro dos ingressos, dos
comerciantes que chegaram a pagar R$5 mil para trabalhar dentro da arena montada, além de dar um calote nas firmas que montaram o palco, o som, os banheiros químicos.

O curioso é ver o sr. Pomar e sua justificativa patética dada a jornais de que “descobriu”, com o evento em
curso, que não havia dinheiro para pagar aos artistas. Como não tinha dinheiro, se antes da fuga na madrugada do último domingo recolheu o que tinha arrecadado e sequer avisou às pessoas que o evento estava cancelado? Rey, um operário da música que há décadas vive por lá, foi chamado para ser o produtor local. Passou dois meses trabalhando, pegou R$5 mil da sua poupança para pagar a terceirizados "enquanto o pagamento não batia na conta"... Ficou sem o dinheiro e agora está com medo de sair na rua porque inescrupulosos partiram e ele ficou.

A fuga do sr. Anderson Pomar foi testemunhada por algumas pessoas, fora da arena, no sábado. Os
seguranças que ele contratou gritavam: "Você não vai fazer isso com a gente não, nós somos polícia (sic)!" O dono do campo levou uma volta e passou mal. O delegado de Friburgo se disse surpreendido. Reforçou ainda mais a segurança local — mas, antes, afixou no muro da arena vazia o nome dos três elementos (Pomar, Reis Filho e Souza), com o CNPJ da tal Cartão Postal.

O que mais doeu foi sentir nos moradores uma tristeza profunda por achar que Lumiar vai passar a ser malvista, e nunca mais vai receber artistas importantes. Os inescrupulosos do Serra Sons usaram
maquiavelicamente o slogan "Todos por Nova Friburgo" e feriram o orgulho de uma comunidade que tenta se reerguer depois de uma tragédia.

É importante que esta história seja contada como aconteceu, para que gente assim não tenha chance de repetir golpe de tamanha covardia.

JOÃO PIMENTEL é jornalista.
Fonte: O Globo